Translation by the author in collaboration with the editors

The Chrysanthemum and the Guillotine (directed by Takahisa Zeze, 2018). I’m glad I watched this movie. Much more than the story of female sumo wrestlers who existed in Japan a hundred years ago, as the synopsis has it, the vision we have is of Japan in the Taishō era. Poor and full of possibilities, of dreams of freedom, of art forms still occupying the river banks, rice fields, and open sky instead of concert halls, concrete and glass institutions, tourist attractions for the general public – the imported mode as everything you essentially see there today.

The film portrays the end of an era, the end of a culture of its own, where dressing your clothes was an everyday option, not a costume for formal occasions. The body we see there is free, dancing in spontaneous gatherings; the music was improvised without schedule, one could speak loudly or with strangers, not following the clock. Women were strong and such was the standard of beauty.

This field of the Possible was the world of my grandparents’ childhood and youth, at an age close to this film’s protagonists’. This is the Japan that they brought with them, like most of those who immigrated to Brazil. Looking for what? An extinct possibility? A freedom that could be lived on board, that could no longer find space on land?

Neither wrong nor right, I believe, they farewelled a State Policy that dismissed mouths hungry for rice and screaming, and found another that needed only labouring hands, not human beings. Here they lived the life of discrimination, which showed its worst side during the Second World War by making us suppress language, communication and pride in the way of living we inherited from the ancients, by keeping us silent or obliterating everything that could appear Japanese.

We moved away from the individual matchboxes that would form the megalopolises of the island country, and from the body trimmed from the edges where just the libido was located. But here we became Japanese in the face, Brazilian in language, assimilated in the cities, integrated into the progressive society, finally, “successful” and distant from the knowledge of the land, as all who put themselves under the steamroller of capitalism do.

We saw it all happen here and there. There was no escape for us. Now, comfortably settled in the city, what do we watch? The repetition of history. Other people – whose ways of life also diverge from the logic of gold, paper, and cosmetics – are still under the judgment of the same Policy: cultural or physical death. “Order and Progress”, as the Brazilian flag has it.

In our transmuted Japanese and Japanese-Brazilian culture, there is no place without conflict. However, what was valuable for us one day survives in our sister cultures. Among the 305 nhandewa (1) ethnic groups that remain in Brazil today, there is still respect for the elders, the vision of nature and its divinity, the feeling of gratitude, the knowledge of the hand, the collective as a measure for individual actions, a less malicious look, confidence despite naiveté, the contemplation of art amalgamated with the usefulness of everyday life, the only ambition of living, that is “Life as an end in itself, not as means or circumstance” (flap text by Massao Ohno for the book Síssi: A Menina Iluminada written by Leyde Zorowich Ribeiro Lutti, 1997). If something sounds familiar and nostalgic to us, we have to defend the nhandereko (our way of life in Tupi-Guarani, which is not plural for nothing) in the way we didn’t defend our own, for there we see what we could have been.

(1) Nhandewa is how native people call themselves in Tupi-guarani. In the year 1500 of the Christian calendar, the year of the arrival of Europeans on the coast of the land that was later called Brazil, there were more than 1000 different languages spoken by the local population. Today, there are fewer than 300, a decrease estimated as between 2 million and 7 million people in 520 years.

Note: The author thanks Jérôme Florent, Sam Collier and Leslie Mabon.




『菊とギロチン』(瀬々敬久監督, 2018年)。この作品を見てよかったと思う。あらすじによると100年前の日本に生きていた女性力士の話だというが、大正時代の日本も見られる話だ。貧しく、可能性や自由を夢見る人であふれていた時代でもあった。芸術は海岸、田んぼ、晴れた空にあった。鑑賞するためにある値段を支払ったり、コンクリートやガラス造りの劇場や美術館を訪問する必要のある芸術ではなかった。後者は他所の国から取り入れられたもので、今の日本では何もかもがそのやり方で機能している。







私たちは日本・日系文化の中に常に葛藤を抱えている。しかしながら、同国にある別の文化の中に昔の価値観が未だに残っている。ブラジルに生き延びている305もの「nhandewa」(1) 民族には高齢者への敬意、自然の見方や自然の神性、感謝の気持ち、手仕事の重視、集団で個人の問題と向き合うこと、純粋でいながら自信に満ちた人生観、芸術と日常生活の融合への観照、などの習慣がある。生きることに必死になること。「人生はそれ自体が目的で、手段や結果ではない」(Massao Ohnoによる推薦文,Leyde Zorowich Ribeiro Lutti 『Síssi: A Menina Iluminada』,1997年)。それが日系人として懐かしく感じるというなら、「nhandereko」(トゥピ・グアラニー語で「私たちの生き方」)を守らないといけない。私たちの守れなかったことが何になり得たかを見れるかもしれない。

(1) 「nhandewa」はトゥピ・グアラニー語で「先住民族」を意味する。欧州人が後にブラジルと命名した土地に到着した時、現地住民は1000以上の言語を話した。現在その数は300以下である。520年間で200万人から700万人が減少したと推測される。



O Crisântemo e a Guilhotina (dirigido por Takahisa Zeze, 2018). Foi bom ter visto esse filme. Muito mais que a história de lutadoras de sumô que existiram no Japão há cerca de cem anos, como a sinopse descrevia, a visão que temos é a do Japão na era Taishō. Pobre, cheio de possibilidades, de sonhos de liberdade, de formas de arte que ainda ocupavam as margens das águas, os campos de arroz, o céu aberto, e não as salas de espetáculo, instituições de concreto e vidro, atrações a preços turísticos para o público em geral – o modo importado que essencialmente é tudo o que se vê lá hoje.

O filme retrata o fim de uma era, o fim de uma cultura própria, na qual trajar a sua vestimenta era opção cotidiana, e não fantasia para ocasiões formais. O corpo se mostra livre, dançando em reuniões espontâneas, a música se improvisava sem hora marcada, podia-se falar alto, ou com desconhecidos, não obedecer ao relógio. As mulheres eram fortes, e tal era o padrão de beleza.

Esse campo do possível era o mundo da infância e do adolescer dos meus avós, em idade próxima aos protagonistas do filme. Este é o Japão que eles trouxeram, assim como grande parte dos que imigraram ao Brasil. Buscando o quê? Uma possibilidade que se extinguia? Vivendo uma liberdade a bordo que não encontrava mais refúgio em terra?

Nem erro nem acerto, creio, se despediram ali de uma política de Estado que dispensava bocas famintas de arroz e de gritos e encontraram outra, aqui, necessitada de mão-de-obra apenas, não de seres humanos. Viveram a discriminação que mostrou sua pior face durante o período da Segunda Guerra Mundial e que nos fez suprimir a língua, a comunicação, o orgulho de viver um modo de vida herdado dos antigos, para guardarmos calados ou sumirmos com tudo o que poderia aparentar japonês.

Nos afastaram das caixas de fósforos individuais que formariam as megalópoles do país insular e do corpo retificado das arestas onde justamente se encontrava a libido. Mas ficamos aqui japoneses de face, brasileiros de língua, assimilados nas cidades, integrados à sociedade progressista, por fim, “bem-sucedidos” e distantes do conhecimento da terra, como todos os que se colocam sob o rolo compressor do capitalismo.

Vimos tudo isso acontecer lá e aqui, não houve mesmo escapatória para nós. Agora, assentados confortavelmente na cidade, a que assistimos? À repetição da história. Outros povos – cujos modos de vida também destoam da lógica da prata, do papel, do cosmético – ainda estão sob o jugo da mesma política: a morte cultural ou a física. “Ordem e Progresso”.

Na nossa transmutada cultura japonesa e japonesa-brasileira não há lugar sem conflito. Porém há sobrevida do que teve valor para nós um dia em nossas culturas irmãs. Dentre as 305 etnias nhandewa (1) que restam no Brasil atualmente, ainda há o respeito aos anciões, a visão da natureza e o que nela há de divino, o sentimento de gratidão, o saber-fazer manual, o coletivo como medida para as ações individuais, um olhar menos malicioso, confiante embora ingênuo, a contemplação da arte amalgamada à utilidade do dia-a-dia, a ambição unicamente de viver “a Vida como finalidade em si, não meio ou circunstância” (texto de orelha de Massao Ohno para Síssi: A Menina Iluminada de Leyde Zorowich Ribeiro Lutti, 1997). Se algo soa familiar e nostálgico para nós, há que defender o nhandereko (nosso modo de vida, em tupi-guarani, que não é plural à toa) da maneira que não fizemos, pois aí está o que poderíamos ter sido.

(1) Nhandewa é a autodenominação, em tupi-guarani, para se referir aos povos originários. No ano de 1500 do calendário cristão, ano da chegada dos europeus na costa da terra que se chamou tardiamente de Brasil, havia mais de mil línguas faladas pela população local, e hoje há menos de trezentas. Isso representa, portanto, um decréscimo do que se calcula entre 2 a 7 milhões de pessoas em 520 anos.

Nota: Na versão em tupi-guarani as palavras deixadas em inglês não encontram correspondentes na língua ou na cultura tupi-guarani.

Nota: A autora agradece a Gutemberg Medeiros e a Álvaro Machado.


Translation by Kwaray O’ea

The Chrysanthemum a’e the Guillotine (directed by Takahisa Zeze, 2018). Kowa film aetxa Porã ramõ. Synopsis omboparare txondaria sumo regua oikó ma 100 araguydje kykwé py, ogweru awii Japanreko wa’ekwe Taishō araka’e py oikó. Ndepoweiry pirewa, arae aema a’ekwery oikó nhandereko, odjapoma teri arte yy rembé py, aroi djatya aetxa, ywa aetxa awii, concert halls e’y, concrete gwi tarã glass institutions, tourist attractions ywypory oetxa ãwã – the imported mode, ko’ay Ary ore roetxa riwé ywypory reko.

Kowa film omombe’u ta marai pa kowa’e ara opawa’e, ma emoima nhande matitiró Iporãwa’e, costume e’ywa ore upé. Nhanderete re oikó katu, djeroky katu onhimboaty, orerombopu katu mborai ete ma, orerodjaywu Porã wa djoe-djoe pamé rewé, oikó e’y clock.

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(1)  Aragwydje gwi 1500 Christian calendar gwi, marun pa ywypory kwery omae ko’apy yyramoe rembere koriwé orerenoe Brazil, ko’apy idjãywu wa’erã 1000 amboaé languages. Ko’ay ary, ndepoweiry ma as between 2 million and 7 million rete gwi 520 aragwydje py oatsa.

Note: In the Tupi-guarani version, a few words are left in English because there are no equivalent words in Tupi-guarani language and culture.


Juliana KASE is an artist based in Sao Paulo, Brazil. Her Nipo-Brazilian background guides her interest in blurring limited boundaries defined by cultures and history. She works in several languages, and researches beyond the field of art, because the division of art by disciplines, or in rigid categories, between arts and crafts, and between art and life, are all awkward ideas.

Juliana KASE is an artist based in Sao Paulo, Brazil. Her Nipo-Brazilian background guides her interest in blurring limited boundaries defined by cultures and history. She works in several languages, and researches beyond the field of art, because the division of art by disciplines, or in rigid categories, between arts and crafts, and between art and life, are all awkward ideas.

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